O ano de 2025 ficará marcado para sempre na trajetória profissional de Tayane Porfírio. Campeã Mundial de Jiu-Jitsu, a história da faixa-preta com o esporte foi construída por altos e baixos. Como atleta de alto rendimento, Tayane viu as melhores oportunidades de vida se materializarem diante dela. No entanto, episódios sombrios, envolvendo doping e cassação de títulos, fizeram com que ela desenvolvesse problemas psicológicos que quase a tiraram, de uma vez por todas, dos tatames.
No Campeonato Brasileiro da temporada, em São Paulo, Tayane Porfírio foi capaz de mostrar, principalmente para si mesma, o que ainda pode fazer trajando um kimono. Com um currículo robusto, Tayane era apontada como uma atleta capaz de interromper a impressionante sequência de vitórias de Gabi Pessanha, isolada no topo com 166 vitórias seguidas. O fenômeno não experimentava o dissabor da derrota desde 2021. Tayane definitivamente podia neutralizá-la, afinal ela já havia feito isso antes em uma superluta do BJJ Bet em 2021, mas nos embates recentes quem acabou levando a melhor foi a faixa-preta de Márcio de Deus.
A INSISTÊNCIA DE TAYANE PORFÍRIO REDEFINIU SUA TRAJETÓRIA COMO COMPETIDORA; AGORA, OUTRA VEZ NO AUGE
No BJJ Stars, uma semana antes do Brasileiro, as duas lutaram pelo cinturão absoluto da organização, uma defesa de título para Gabi. Naquele dia, o reinado dela permaneceu intacto já que Pessanha saiu vencedora do duelo por finalização. O mesmo aconteceu em uma das lutas do absoluto no final de semana do Campeonato Brasileiro — mais uma vez, a multicampeã da Cidade de Deus amargou os planos de Tayane ao finalizá-la. Na final do super-pesado, no domingo, dia 4 de maio, tudo mudou.
Convidada especial do primeiro episódio da nova temporada do ‘Resenha M8’, Tayane falou da vitória sobre Gabi Pessanha e afirmou que o preparo psicológico fez toda a diferença no resultado.
“Foi a primeira vez, eu acho, que entrei pensando: ‘caraca, eu só vou fazer um treino.’. Então, tipo assim, eu meio que silenciei tudo ao meu redor. Eu não lembrava da gritaria que foi quando eu quedei ela ali no single leg. Eu não lembrava daquela gritaria. Eu me ligava muito no que meu coach estava falando e me desliguei do externo.”, descreveu Tayane.

FAIXA-PRETA FICOU AFASTADA DO ALTO RENDIMENTO POR ANOS, O FORTALECIMENTO PSICOLÓGICO FOI UMA DAS MEDIDAS QUE A MANTIVERAM DE PÉ
Ao comentar sobre a vitória, mais um título brasileiro que Tayane acumula na faixa-preta, ela usa a palavra predestinação para definir essa conquista como um marco de toda sua caminhada. Depois de se afastar das disputas na elite do esporte por seis anos — além dos traumas adquiridos, Tayane ampliou a família com o nascimento da filha Maria —, destronar a atleta mais dominante da história do Jiu-Jitsu em uma final de competição do Grand Slam da IBJJF foi uma prova de que ela ainda tem muito a entregar.
“Eu estava predestinada, né? Eu sempre tive uma coisa com fênix, sempre, desde novinha. Todo mundo me virou as costas quando eu mais precisei. No Brasileiro, eu me considerei realmente (uma fênix), eu vim do pó novamente. Eu cheguei no topo, no auge da minha carreira e do nada, reconstruir tudo novamente. Não é fácil passar pelo que passei. Deus prepara tudo no momento certo, tudo que você planta, você colhe.”, afirmou.

TRAUMA NA PIRÂMIDE E CRISES DE ANSIEDADE: TAYANE CONTA COMO SUPEROU TEMPOS SOMBRIOS
Na conversa, disponível na íntegra no canal da M8 Sports no YouTube, Tayane falou mais sobre ter caído no doping durante o Mundial de 2018 depois de ter faturado o ouro no peso e no absoluto. Conforme explicado por ela, que afirmou ter sido vítima de uma armação que estimulou o consumo da substância proibida, sem consentimento, Tayane desenvolveu um bloqueio com a Pirâmide, na Califórnia, no ginásio que é palco do Mundial da IBJJF. Qualquer menção à Jiu-Jitsu era um estopim para crises de ansiedade.
“Quando aconteceu tudo do doping eu fiquei muito mal mentalmente porque foi uma pessoa diretamente que armou para mim e por muitos anos eu achei que era maluca. Isso fez eu me distanciar muito das pessoas do Jiu-Jitsu. Eu não conseguia acompanhar, ver luta. Tinha Mundial, eu bloqueava o meu Instagram, não entrava. Qualquer coisa que viesse falando sobre Jiu-Jitsu me causava muita crise de ansiedade. Voltar hoje, para mim, é conseguir vencer a mim mesma.”
Recuperada dos traumas e pronta para novos desafios na carreira, Tayane, agora mais madura e resiliente, vai voltar ao cenário que um dia testemunhou o seu brilho de campeã mundial de Jiu-Jitsu. As conquistas de 2017 na Pirâmide, campeã ouro duplo, permanecem intactas. Impulsionada pelo feito incrível do Brasileiro, Tayane Porfírio chega na disputa, que começa no próximo dia 29, com bagagem suficiente para ser aplaudida de pé.


